REINA

O EP Reina foi lançado no dia 09 de setembro de 2018. “Reina” tem se configurado como a atual fase, e inicial, da trajetória solo de Ian Cardoso. Rodeia os estímulos simbólicos dos sonhos, da natureza e do apocalipse, para abordar questões existenciais. “Reina” remete a algo grandioso, que eventualmente transcende as percepções imediatas e não necessariamente significa algo inacessível. Compreende o simples, o complexo, o uno, o todo e todo ser-elemento-sentimento que mora nos “entres” das certezas. “Reina”, sobretudo, é virar a atenção para tudo que está ao redor, para a coisa além da coisa.

“Existe um momento em que você̂ passa a fazer parte. Como todo bom outro invade, e abre. Toda a história de posse, da propriedade privada, gera dinâmica, seja em maior ou menor escala. Em menor escala os fatores aparentam ser mais interpenetráveis, de forma mais instantânea. A maior escala é um gigante ofuscador e pode tomar corpo. Vira o opressor, vira Deus... nos distancia da realidade. Nos tira a culpa e nos tira a ação. Nem a menor nem a maior escala merece diferenciado título de "naturalidade". Pois é tudo ou nada. Quem dirá́ lama ou luz em face da humanidade? Observemos a merda. O cocô. É brilhosa, de cor fechada. É fedorenta, instintivamente repugnada. Mas nada mais impreterível, inexorável. E o incrível é que não se fala muito sobre ela. A não ser que, por exemplo, a sua aparência esteja... anormal! Mas aí você normalmente não se preocupa com a merda, você̂ se preocupa com outras coisas. Com o emocional, por exemplo. Outra maneira dela por um instante emergir dos assuntos obscuros é quando mela. Soube de uma história de um banco que ligou para o posto de gasolina para reclamar que tinha chegado um malote com uma nota de cem reais melada de bosta. Fedorenta. Incomodou. As vistas, o olfato, o contexto social... tanta coisa! Voltando ao teor da humanidade e da trajetória geral das coisas todas, nada supera o afeto, que pode ser a angústia ao olhar para a arrogância, a burrice e o egoísmo que reinam. Um alto grau de carência material injustificável. A carência pelo excesso, que engolem carências orgânicas e o mínimo de dignidade. Nada supera a merda do homem. O homem não supera nem a sua merda.”

 

(Música "Reina". Texto incidental)

Algo nos conecta. Debaixo de nós corre um rio de símbolos, palavras, significados, definições e essas coisas que se captam, mas não se podem tocar. Trocamos aquilo que já conseguimos pescar nesse rio. E boa parte da vida é promovermos coletâneas e mosaicos para nos aproximarmos do que ainda não foi pescado, pois a medida do indizível sempre existirá pelo caminho evolução. Então assim, de repente, sempre podemos aceitar sermos um tanto mais evasivos e brandos tanto na forma como estamos dispostos a receber e interpretar, quanto como desenvolvemos a expectativa de como seremos interpretados de acordo com o que se espera ou não. Para quê essa pressa toda?

 

O EP “Reina” foi desenvolvido também durante a realização do curso de mestrado no Programa de Pós-Graduação Profissional em Música, realizado na Universidade Federal da Bahia. A defesa do trabalho final, que tem como título “REINA: a coisa e o além da coisa na produção de um EP” aconteceu no dia 10 de abril de 2018, e versa sobretudo sobre as diversas inquietações do artista no período de realização do mestrado e da realização do EP, tratando sobre temas como atmosfera criativa, improvisação, processos criativos, colaboração, dentre outros.

Reina é um disco para se escutar demoradamente. A cada audição é possível perceber uma nova camada sonora vindo à tona, um timbre, um ritmo, uma ideia. O álbum fala de solidão, de memória e do ser em sua vastidão: o que é a vida, o que somos nós, o que é o tempo? Há um balanço das coisas do universo, o “abraçar o tudo e o nada”, que está tanto nas letras como na sonoridade, misturando canção com prosa; poesia com instrumental; dança e suingue com introspecção.

 

(Pérola Mathias, blog Poro Aberto)

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